16 de agosto de 2010

Elefante

Por Cecília de Sousa
e Renata Gonçalves



Crônica produzida para aula de Criação de Texto II.
Objetivo: escrever uma crônica com a seguinte frase: “Apenas tirei o que não era elefante”


ELEFANTE

Seu nome era José. Zé para os íntimos. Apesar de suas roupas sujas e remendadas e de sua aparência bruta, era um homem de semblante calmo e que transparecia sensibilidade no seu olhar.

Pés descalços e maltratados, calças pula-brejo feitas de sacaria, canelas finas... O maranhense era realmente um magricela – mais parecia uma lombriga! Com a camisa aberta para evitar o calor do fim da tarde, Zé tinha mãos calejadas, o que evidenciava o seu ofício. Artesanato.

Vivia numa simples casa de pau-a-pique, fruto de muito suor e trabalho. A moradia ficava bem próxima à praia, onde costumava vender suas peças. Marido de Antonia. Se apaixonaram em um verão e, meses depois, juntaram seus trapos – que eram poucos – por conta do bucho inesperado da moça.

Hoje, com seis filhos, o casal continua a vender seus artesanatos pela cidade. Ele, esculturas. Ela, bordados. Zé costumava ficar na pracinha principal, um dos pontos turísticos mais visitados em época de férias. E foi ali que eu o conheci.

“Moço, quanto que tá esse casal de elefantes? Quero levar para a minha mãe, que mora no interior de Minas.” O pobre homem levantou o olhar e, com um sorriso no rosto, disse que os objetos custavam muito menos do que eu esperava. Uma bagatela perto do valor simbólico que tais esculturas mereciam.

Fiquei impressionado com a capacidade que Zé tinha de esculpir animais de todos os tipos em simples espigas de milho. “Onde foi que você aprendeu?”, quis saber. Ele me explicou que aprendeu a técnica com o seu pai, quando ainda era um menino. De família muito pobre, eles só tinham milho, cultivado por eles, para comer. Era preciso ter mais um ganha pão: com as sobras, esculpiam desde animais a pessoas.

Ainda impressionado com o dom de transformar algo tão banal em arte rica de detalhes, perguntei como era possível esculpir em restos de comida um elefante tão fiel à realidade. “Apenas tirei o que não era elefante”. É incrível como, depois que conheci o Zé, eu passei a ver a vida de uma maneira mais simples.

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